Resíduos sólidos como matéria-prima para a geração de energia

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“O lixo é um desperdício de matéria-prima”, dizem alguns ambientalistas. O reaproveitamento dos resíduos sólidos como matéria para a geração de energia já é realidade em muitos países. 

Para discutir o assunto o Conselho Regional de Química da 4ª Região (CRQ IV) convidou para sua live, na quinta-feira (22), à noite, no seu canal no Youtube, os especialistas José Carlos Silvestre Filho, professor da Universidade Federal de São Carlos (unidade Sorocaba), e Wellington Pereira, mestre em Físico-Química. Ambos com mais de 15 anos de experiência na gestão de resíduos sólidos. A live foi organizada pela Comissão Técnica de Energia do CRQ-IV.

“É um tema abrangente, mas ainda pouco conhecido no Brasil”, destacou Silvestre, no início da sua exposição. 

Carlos Silvestre, que é criador do Programa Aterro Zero Salmeron Ambiental, em São Paulo, mostrou preocupação com as mudanças climáticas. Ele disse que as atividades humanas como transporte, agropecuária, desmatamento, atividades industriais, descarte de resíduos sólidos e queima de combustíveis fósseis, entre outros, têm um impacto enorme no efeito estufa e nas mudanças climáticas. 

De acordo com o especialista, o setor de energia no Brasil contribui com 35% na causa do efeito estufa, seguido pelo setor agropecuário (24%). 

Já o Wellington Pereira lembrou do arcabouço legal. “Quem polui paga e quem recicla deve receber”, disse o especialista em Gerenciamento de Resíduos Industriais e Urbanos.

Pereira informou que o reaproveitamento de resíduos sólidos no País ainda é baixo, em torno de 4%. “O nosso modelo econômico atual é linear . Ele tem alguns problemas. É ineficiente e gera muito desperdício. Ainda é da década de 1960. O que a gente procura é um modelo sustentável e circular”, destacou.  

Sobre a legislação, o professor de Engenharia Ambiental salientou a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS). Criada em 2010, a lei estabelece como princípios básicos o desenvolvimento sustentável, a responsabilidade compartilhada e o reconhecimento do resíduo sólido como bem econômico gerador de trabalho e renda. 

Ainda segundo o documento, as ações visam à proteção da saúde e do meio ambiente, e a redução do volume de resíduos sólidos, incentivando a reutilização, a reciclagem e o tratamento de resíduos.

Segundo Pereira, o Brasil produz 79 milhões de toneladas por ano de resíduos sólidos. Cerca de 60% vai para aterros sanitários e 40% são simplesmente despejados [lixão].

Ele explicou também como se dá o reaproveitamento energético de resíduos sólidos, já que 60% da nossa matriz é oriunda de energia hídrica. 

Uma das formas mais utilizadas no mundo é o forno de cimento (clinquer). “Há muito espaço para essa técnica crescer no Brasil. O potencial de recuperação energética em regiões metropolitanas em fornos de cimento é grande”, afirmou

Para o professor, outra maneira sustentável é a digestão anaeróbica, onde se gera o metano que alimenta uma caldeira e, assim, se produz eletricidade. A fonte desta unidade pode advir da atividade pecuária, lodo ou cana-de-açúcar.

Outra tecnologia disponível são os incineradores de grande porte, chamados de mass burn. Ele ainda tem um custo de implantação muito elevado, e para otimizar este tipo de unidade, ela deve estar próxima de grandes centros urbanos, como acontece na França, Alemanha e China. A técnica é viável economicamente a partir de uma população acima de 500 mil habitantes. Essas unidades, nesses países, ainda se harmonizam arquitetonicamente com o espaço urbano. Na Europa existem em torno de 500 unidades deste modelo. “Alguns lembram um grande shopping”, garantiu. 

A gaseificação é outra técnica utilizada. É uma combustão incompleta já que o gás produzido será queimado numa etapa posterior em caldeiras ou motogeradores. 

Desafios e ações

Para Carlos Silvestre, o grande desafio com o advento da PNRS é reduzir a geração de lixo e prever estratégias para sua reutilização, além da reciclagem e o reaproveitamento energético dos resíduos. “Continuar gerando lixo e enviar para aterros sanitários não é uma solução. Temos que reduzir o lixo em aterros sanitários e reciclar”, aconselhou. 

Ele ainda lembrou que a crise hídrica atual vem trazendo impacto e escassez energética nas matrizes hidrelétricas. 

Outra ação importante é a reciclagem de resíduos de madeira oriundos da construção civil e do lixo doméstico. “A cada 10 toneladas de madeira reciclada, mais de 62 árvores são poupadas”, ressaltou Silvestre ao mencionar que o lixão foi proibido no Brasil com a criação do PNRS, embora ainda existam cidades com operações neste modelo. 

Os aterros sanitários, que são controlados com mantas que monitoram o volume de resíduos com sistema de captação de gases, representam um cenário comum nas cidades brasileiras. “Mas, ainda assim, emitem gases, ocupam grandes áreas para a operação e tem riscos de infiltrações. O ciclo de vida do aterro sanitário perdura por décadas, porém provoca a degradação e desvalorização imobiliária do seu entorno. 

O aterro zero também pode ser uma alternativa, uma vez que elimina totalmente os resíduos, com o aproveitamento energético e emissões de gases de efeito estufa. 

Silvestre comemorou a realização, ainda este ano, do primeiro leilão de energias renováveis. Um dos estados escolhidos é o Maranhão. O edital exige a geração de, no mínimo, 15 megawatts por hora.

Ao concluir, o especialista afirmou que o Brasil ainda está num processo de aprendizado no assunto de reaproveitamento energético de resíduos sólidos. 

Assista à palestra digital completa em https://www.youtube.com/watch?v=SF-RkR7tUfc

Fonte: CFC - Conselho Federal de Química

Tags: energia brasil sólidos resíduos silvestre

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